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Supervisão Clínica: Para Psicólogos e Psicanalistas.

18/02/2019

Para o presente texto tomo como interlocutores privilegiados os meus colegas psicólogos e psicanalistas. Adotarei linguagem técnica mais densa, mas procurarei manter a clareza das explicações para que os demais leitores também possam acompanhar a conversa. Para conseguir alcançar esse ambicioso propósito anunciado, conto com a generosidade de vocês para acompanhar-me na linha de raciocínio que irei traçar.

Desde a invenção da psicanálise, Freud instituiu como formação necessária para o exercício da clínica o tripé Estudo, Supervisão e Análise.

A supervisão consiste no momento de análise da prática do terapeuta. Um espaço para que possamos refletir sobre o modo como alguém se constitui como analista, como se posiciona diante de seu cliente e como se relaciona com a teoria e a prática clínica. Freud assinalava como função primordial da supervisão clínica o empenho na análise da contratransferência. O conceito de contratransferência em Freud serve para dizer da transferência do analista. E por que, então, ele não usou apenas o termo transferência? O que ela difere da transferência do paciente? Usando de termos que não os freudianos para explicar, mas sim palavras advindas de um campo conceitual aproximado à psicanálise, poderíamos inferir que o inventor da psicanálise talvez estivesse se esforçando para configurar a prática da supervisão como um campo diverso daquele em que se desenvolvia a prática da análise. Tal mudança implica em tomar o supervisionando em sua condição de profissional, e não na condição de paciente. É um deslocamento de lugares institucionais. A dupla Analista – Paciente, cede lugar à dupla Analista Supervisor – Analista Supervisionando. Para configurar a diferença dessas duas práticas é necessário circunscrever o campo de trabalho da nova dupla de uma forma distinta da análise do divã dos pacientes. O termo contratransferência viria marcar, então, essa mudança.

Pensando em termos institucionais, podemos lançar mão de outras palavras para configurar o campo da supervisão em sua singularidade e distinção em relação ao campo da psicoterapia. Não precisamos postular que a transferência do analista é uma transferência “diferente”, podendo incorrer no risco de em algum momento supor que ela possa ser mais “nobre” ou mesmo de conter uma substância outra. Quando Freud postula a transferência, fala dela sem se ater a algo fundamental e que a Profa. Marlene Guirado, do Instituto de Psicologia da USP, nos aponta com rigor. Quando transferimos, transferimos um modo de relação e, assim, reeditamos, imaginariamente, lugares institucionais, ou lugares de fala e escuta. Em outros termos, sempre que o contexto parecer permitir iremos reeditar o nosso modo preferente de nos relacionarmos. Por exemplo, ao entrar numa sala dentro de uma faculdade que está com todas as carteiras enfileiradas irei automaticamente escolher uma delas para sentar, caso eu seja um aluno, e esperar alguém chegar para iniciar a aula. Se eu for professor, farei isso apenas se não estiver gozando de bom funcionamento de minhas faculdades mentais ou se quiser causar algum tipo de estranhamento. A situação de contexto, sala de aula dentro de uma universidade com carteiras enfileiradas, por si só já define uma série de comportamentos que se pode ter e que não se pode ter de imediato, define lugares para atores em cena e expectativas de ação para cada qual. No caso da análise não será diferente. O paciente tem o seu lugar, bem como o analista, e a essa dupla está previsto um tipo de relação, um escopo de propósitos possíveis, um serviço a ser oferecido e resultados a serem atingidos. Para a dupla na supervisão os lugares serão outros, bem como a que se propõe o serviço a ser oferecido e os resultados que se pode esperar.

Nesse sentido, o trabalho de supervisão se constitui com o propósito de auxiliar os profissionais e estudantes em sua tarefa de se construírem na direção de tornarem-se o profissional que desejam ser, realizando sua prática de maneira afinada com a reflexão acerca de como ela deva acontecer. Para tanto, a análise do contexto da prática não pode ser negligenciada, e a ela soma-se a necessidade de oferecer os subsídios técnicos para o fazer profissional. Colocaremos em análise como o profissional vem se constituindo como psicólogo no seu ambiente de atuação (consultório particular, clínica de atendimento a convênios, hospital, escola, etc), partindo de uma análise dessa instituição e das possibilidades que o contexto fornece para a atuação profissional. Acrescentaremos à análise o quesito técnico, ou seja, saber se aquilo que sabe e que pensa o terapeuta sobre a análise e o processo psicoterápico está ajudando ou atrapalhando no processo de se constituir como terapeuta. O profissional tem conhecimentos consistentes? Se não tiver, teremos de proporcionar esses conhecimentos. Seus saberes estão sendo utilizados de forma adequada? Estão atingindo os objetivos proposto para o trabalho? Em caso negativo, será necessário mudar a chave de pensamento e seguir por outra linha. A supervisão, portanto, se caracteriza num processo tutorado de construção de si como profissional que implica a desconstrução e análise de si nesse papel de profissional. Não é tarefa fácil. Mas quem disse que se constituir num bom psicólogo é tarefa fácil? E é por isso que toda a sociedade deve valorizar esse empenho.

Até o próximo texto!

 


ronaldo coelho psicologo em sp

Ronaldo Coelho Psicólogo

Atendimento particular a adolescentes, adultos e idosos.
Graduado em Psicologia (USP) e Mestre em Psicologia Institucional (USP).
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Ronaldo Lopes Coelho - Doctoralia.com.br

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