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Vamos falar sobre Autismo

01/04/2019

Dia 02 de abril, amanhã, será o dia mundial da conscientização do autismo!

O azul é a cor que simboliza a campanha, a cor do autismo. O intuito da Organização das Nações Unidas ao criar a data e celebrá-la todos os anos, desde 2007, é o de chamar a atenção da sociedade para o autismo. Estima-se que a síndrome atinja cerca de 70 milhões de pessoas no mundo, mais de um terço da população brasileira. No texto de hoje, apresentarei o autismo naquilo que diz respeito à psicologia como teoria e prática terapêutica, partindo de um ponto de vista que considera a base genética, neurológica, do autismo, e que foca atenção nas questões psicológicas e sociais, pautando uma estratégia terapêutica e pedagógica para o desenvolvimento do trabalho com autistas.

A Síndrome do Espectro Autista é caracterizada pelo comprometimento da interação social, comunicação verbal e não verbal e comportamento restrito e repetitivo. Acredita-se que a causa do autismo resida numa série de desafios neurológicos ao qual a criança possui muitas dificuldades em superar, dificuldades essas superiores às que outras crianças encontram. O contato com essas dificuldades provoca uma enorme angústia e necessidade de controle de situações. Frente à experiência de não saber lidar com os estímulos que a cerca, a criança tende a buscar aquilo que a ela é possível controlar. Num espectro de controle, temos o seguinte esquema:

 

Corpo próprio => objetos => Pessoas Responsivas => Pessoas Diretivas => Grupo Resp. => Grupo Diretivo.

 

Onde, o próprio corpo é o mais fácil de controlar e o Grupo Diretivo o mais difícil de obter controle. Por Responsivo entendemos o comportamento de pessoas que fornecem o controle da situação para o outro, atuando apenas sobre seus próprios comportamentos, somente respondendo às ações desse outro. Por Diretivo entendemos o comportamento que visa à modificação do comportamento do outro retirando dele o controle de suas ações. Por ora, poderíamos resumir que Responsivo é o comportamento que busca agir nas próprias respostas e Diretivo é o comportamento que busca modificar as ações do outro.

Nos casos onde o autismo se manifesta de maneira mais severa a criança encontra tantas dificuldades na superação desses desafios que tende a se isolar do mundo. As informações sensoriais que chegam ao seu cérebro não conseguem ser codificadas de modo a fornecer um sentido para ela, e a atitude da criança passa a ser de estereotipias para tentar focar sua atenção em algo que é possível prever e, desse modo, aplacar a angústia.

Nesse sentido, a comunicação e a socialização se tornam os principais desafios para qualquer criança autista. Nosso trabalho é o de realizar essa ponte entre a auto-regulação (o mundo em que vivem) para a socialização (o mundo em que vivemos). A forma que nos parece mais eficaz é adotando uma postura Responsiva. Como assim? É suposto que há dificuldade de controle por parte da criança. Desse modo, o primeiro passo é oferecer controle da situação a ela. Num ambiente terapêutico ideal, que chamamos de “quarto lúdico”, o terapeuta pode garantir que a criança faça o que quiser sem riscos de se machucar, não machucar outras crianças e não machucar o próprio terapeuta. Trata-se de um ambiente engenhosamente pensado para que o terapeuta não tenha que se haver com a necessidade de controlar as ações da criança e possa se deter a pensar somente nas respostas que dará às ações dela. Esse momento é essencial para crianças que não se comunicam de forma alguma.

O sentido que naturalmente é construído para crianças neurotípicas (de tipo neurológico dentro da norma, ou mais comum) não é óbvio para os autistas. A pergunta deles é “para que eu deveria olhar as pessoas nos olhos?”. Para a maioria das pessoas isso é tão natural e evidente que às vezes nem sabemos como responder. Contudo, o sentido de olhar nos olhos precisa ser construído com aqueles que sequer estabelecem contato visual. Eles precisam entender o que pode haver de prazer nisso. “Quando eu olho nos olhos de uma pessoa, o que acontece no ambiente onde eu me encontro?” essa é a pergunta que temos que criar com eles. De acordo com a estratégia terapêutica adotada por nós, postulamos que a resposta ao olhar da criança deva ser a celebração dele: “acenderemos como uma árvore de natal” para que a criança possa perceber que para nós seu olhar é importante, e que olhando em nossos olhos ela consegue algo que não conseguia e não conseguirá sem isso. Construiremos, pouco a pouco, o sentido das coisas do mundo. Sentido esse que não está sendo possível construir pela dificuldade em superar esses desafios neurológicos e pela falta de motivação, visto que possivelmente elas têm encontrado mais desprazer que prazer nessas tentativas.

As escolas possuem uma estrutura de sala de aula que é, antes de tudo, um grupo demandante. É o último estágio do desenvolvimento da comunicação e socialização para um autista.  A figura do professor é a caricatura da pessoa demandante: “peguem o livro, abram na página 45, exercício 3. Vamos corrigir”. A sala de aula funciona quase que exclusivamente por comandos dados à distância. Algo completamente inacessível para alguém com grau severo de autismo. Será necessário, nesse processo, primeiramente, a criança ter a possibilidade de estabelecer um vínculo onde ela possa suportar uma Relação Demandante de ordem dual, ou seja, com uma pessoa em quem ela confie e goste de estar junto. Esse é o papel do Acompanhante Terapêutico (AT): realizar a ponte que inicie a criança no “nosso” mundo, no mundo da comunicação. Na escola inclusiva a criança poderá experimentar, à medida que for conseguindo, a interação com outras crianças, outros adultos e pequenos grupos. O AT será seu porto-seguro para tatear o mundo com menos angústia que antes. Somente quando estiver bastante avançada em seu próprio processo de desenvolvimento a criança poderá compreender que é um aluno que pertence à classe e, desse modo, compreender os comandos dados pelo professor como sendo comandos a ela também. O mesmo podemos dizer sobre o estabelecimento de uma conversação razoável com outra pessoa, essa é uma das ultimas etapas do processo. Nesse sentido, ter como expectativa que a criança possui essas capacidades é um erro que levará à frustração e a uma relação contraproducente com ela.

No próximo texto do blog, continuarei o assunto falando sobre a Síndrome de Asperger, uma síndrome que pertence ao espectro autista, mas que possui uma série de especificidades não abordadas aqui. Assine nossa newsletter para receber os artigos sempre que forem publicados!

Até o próximo texto!


ronaldo coelho psicologo em sp

Ronaldo Coelho Psicólogo

Atendimento particular a adolescentes, adultos e idosos.
Graduado em Psicologia (USP) e Mestre em Psicologia Institucional (USP).
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Ronaldo Lopes Coelho - Doctoralia.com.br

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